“Debaixo daquela chuva torrencial, aqueles dois trocavam beijos sem pensarem um no outro.
Não foi chocante. Foi até bastante previsível. O egoísmo que lhes reconheço é demasiado forte para se aperceberem disso… ou melhor, para se importarem com isso.
Pensavam em quem lhes enchia o coração, pensavam no que deixaram de fazer e pensaram nos sonhos que tinham por realizar.
Olharam um para o outro, e não encontraram do outro lado do espelho o seu reflexo.
Encontraram, sim, um reflexo distorcido de quem um dia realmente amaram. Um reflexo tão distorcido, como a realidade em que vivem. O jogo de mentiras, traições e falsa dedicação.
Afastaram-se rapidamente, porque algo mais importante existia, do que estarem debaixo de chuva. O beijo não era suficientemente forte para os fazer esquecer as centenas de gotas que lhes tocavam e teimavam em escorrer pelo cabelo. Os arrepios não eram de paixão. Essa à mto se esvanecera, logo após os primeiros 5 minutos. Hoje, era a chuva que tinha o poder de os fazer sentir apaixonados, não o que sentiam ou pensavam sentir um pelo outro.
Afastaram-se sem olhar para trás. Com um gesto mecânico, retiraram os earphones do iPod, e escolheram a música… Completamente diferente.
Continuaram o seu caminho, já esquecidos um do outro e limitaram.se a observar e a serem observados por todos os que caminhavam pela rua.
Ela parou, junto a uma montra… olhou-a, estudou-a de uma ponta à outra e a indiferença apoderou-se. No Reflexo… o seu Reflexo era ela própria.
Desnuda, sem qualquer artificio ou artefacto. Ninguém a acompanhava no seu reflexo, nem a sua pretensa alma gémea. Olhou pela última vez, concentrou-se e nada mais viu do que aquilo que realmente era. Ela, somente ela, sem querer enganar ninguém, sem se enganar a si própria.
Os sentidos despertaram, e sem chuva, no reflexo, o arrepio correu-lhe a espinha até à nuca… e com um gesto repentino da cabeça… beijou-o
Simplesmente Beijou-o.
Cá fora na vida real… continuava a chover, cada vez com mais intensidade!
Calmamente a vida continuava… sem sonhos e com a frieza de uma noite de inverno…”