« Abro a porta suavemente. O interior ilumina-se. Salta o cheiro característico cá para fora e respiro fundo.
Sento-me vagarosamente, e dou um jeito à bagunça… Já o merecias…
Carrego no Start-Stop e desligo o rádio. Fico deslumbrado a ouvir o som do teu arranque.
Lá fora o termómetro marca 6º celsius, esta fase preliminar vai durar mais do que eu estava à espera. O coração bate ao ritmo do bombear da gasóleo pelos injectores.
Saímos docemente, ao som ainda desafinado dos cilindros. O ponteiro da temperatura vai subindo enquanto procuro um CD que me ajude a passar o tempo.
São duas da manhã e estou mais ansioso que nunca. A escolha musical parece-me mais que óbvia…
“vou andando, cantando… tenho o sol à minha frente… tão quente brilhante, sinto o fogo à flor da pele. Ao longe, distante, fica o mar no horizonte… é nele, por certo, onde a tua alma se esconde, carente, esperando, esse mar és tu… … pode a noite ter outra cor, pode o vento ser mais frio, pode a lua subir no céu, eu já vou descendo o rio….”
A temperatura subiu… estão 90º debaixo do capot. O Primeiro pisar do acelerador ao som da música leva o motor às 3000 rotações num ápice, e as costas ficam encostadas no banco. Faltam muitos Km’s, muito alcatrão ainda por comer. O depósito está cheio e promete-me uma viagem distante.
No leitor de CD’s, em shuffle, aparece-me a Mafalda e a Susana num daqueles duetos…
Ninguém disse, que os dias eram nossos, ninguém prometeu nada, fui eu que julguei que podia arrancar sempre mais uma madrugada…
ninguém disse que o riso nos pertence, ninguém prometeu nada, fui eu que podia arrancar sempre mais uma gargalhada
E deixar-me devorar pelos sentidos, e rasgar-me do mais fundo que há em mim, emaranhar-me no mundo e morrer por ser preciso nunca por chegar ao fim…
Ninguém disse que os dias eram nossos, ninguém prometeu nada, fui eu que julguei que podia arrancar sempre mais uma madrugada
e deixar-me devorar pelos sentidos, e rasgar-me do mais fundo que há em mim, emaranhar-me no mundo e morrer por ser preciso, nunca por chegar ao fim…
Ao som de “por outras palavras”, engato a 4ª e levo o carro ao limite de velocidade… acelero agora a 120 em direcção a…, sem acabar o pensamento, engato violentamente a 5ª ao mm tempo que a musica muda, e catapultamo.nos para perto dos 150km/h.
” foi com o entrar, com o arder, para ti nem foi viver, foi mudar o mundo sem pensar em mim, mas o tempo até passou e és o que ele me ensinou, uma chaga para lembrar que há um fim…. diz sem querer poupar meu corpo, eu já não sei quem te abraçou, diz que eu não senti teu corpo sobre o meu, quando eu cair espero que ao menos que olhes para trás, diz que não te afastas de algo que é também teu…
A intensidade da música, faz-me deslizar pelas curvas… os 150 ficaram para trás à muito e eu espero mesmo que esta viagem valha a pena. Um Quarto do depósito já foi e o consumo está perto dos níveis de adrenalina… 10Lts/100Kms.
As mãos, apertam o volante com força. Sinto agora todas as irregularidades do teu corpo, do teu desejo. Um novo fulgor, e uma nova passagem de caixa, aumentam as rotações e a ansiedade de chegar perto de ti.
Zig-zagueio pelas curvas, cortando uma e outra… e a próxima… Não chove, não faz nevoeiro e consigo(-te) ver (n)o horizonte que a lua me permite…
“Agora que pousas a cabeça, na almofada e respiras satisfeito, quero o teu amor, sem sentido nem proveito…
agora que repousas, lentamente sigo a curva do teu peito… procuro o segredo do teu cheiro… do teu cheiro
Juntos fomos correndo lado a lado, juntos fomos sofrendo ter amado… amas a vida e eu… amo-te a ti…
Sinto.te perto… demasiado perto. O teu cheiro mistura-se com o cheiro do gasóleo queimado e, o Megane cada vez mais, rosna alto e em bom som, dando voz aos 80 vigorosos Cavalos-Potência.”»
continua…